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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Pôr do Sol

Acordei naquele dia disposta a ir ao cemitério! Quem me conhece sabe que este não é meu programa predileto. Existem pessoas que tem medo, que se sentem mal, que vêem coisas. Bem, nada disso é realidade pra mim, somente não gosto, acho a tal da última morada deprimente, bege e cheia de baratas! Decididamente não vou morar lá. Mas existe aqui um porém, se o cemitério em questão fosse Les Innocents a coisa mudaria de figura – se os mortos de lá não tivessem invadido a vida dos vivos, não teriam sido despejados e eu não precisaria ir as catacumbas resolver esta pendenga. Quem sabe Lestat pudesse explicar!

Tinha duas pessoas a tiracolo que precisavam de qualquer modo ir ao Père-Lachaise! Uma eu havia conhecido em Paris mesmo, perdida no albergue e viajando sozinha, adotei. A outra, a amiga que arrastei comigo pela Europa. A primeira queria encontrar os túmulos dos primórdios de sua família. A segunda, Kardec, o que diga-se de passagem não parece nem de longe com ela. Eu, por minha vez, tinha a idéia fixa de ver a escultura de Rodin no túmulo do Balzac. E vamos nós!

As três tontas andavam por Paris como se esta fosse comum, completamente situadas, donas da situação, seguras até a raiz dos cabelos. Magnifique. Demos uma passadinha antes na Place de la Bastille e chegamos ao cemitério ainda pela manhã, indo diretamente entender como aquela “atração turística” funcionava e o valor que deveríamos desembolsar. É importante dizer que quando cheguei a Paris, minha primeira providencia foi comprar um mapa atualizado da cidade, e momento da aquisição do ingresso para o cemitério, fui questionada se gostaria de um mapa básico deste (custava uma fortuna). Decidimos nos arriscar sem mapa, afinal eu havia passado os últimos dias ensinando as pessoas como chegar ao lugares, e o mapa não adianta nada se o ser pensante não conseguir se comunicar com eficiência, e além do mais o que poderia ser tão difícil em um cemitério? Meia hora depois entendi que o fato do cemitério ter mais de 200 anos, era um fator que eu deveria ter considerado, mas meu “gárgula da guarda” estava de plantão e uma alemã completamente perdida veio a mim, pedindo socorro e abanando um mapa - a pobre senhora não tinha a menor idéia de como chegar ao túmulo de Kardec. Meu alemão se restringe a “Obrigada”, mas consegui explicar a ela onde o túmulo ficava e verificar o caminho para o Balzac.

Após ver os dois “monutúmulos” saímos passeando pelo cemitério procurando a família da nova amiga – a essa altura do campeonato eu estava me sentindo em uma praça. O mau humor das minhas duas companheiras, que haviam sido muito mal tratadas na cidade, estava diminuindo, posso dizer até que era um lindo e ensolarado dia de primavera com uma temperatura super agradável. É Paris e ninguém fica triste aqui, nem no cemitério, andamos horas, criticamos e elogiamos tudo, observamos árvores, nomes e datas, e totalmente por acaso, encontramos um túmulo com o nome da família tão procurada. Alegria e fotos! Feito isto, começamos os procedimentos de retirada – mas confesso, eu errei. Existia um lugar que desde o início eu queria evitar passar, nem mencionei a existência dele pras duas, mas na hora de olhar o mapa, o bloqueio era tão grande, que eu não verifiquei para excluir do nosso roteiro. Eu não queria ver, de modo algum, o túmulo do Jim Morrison e acabei na frente dele.

O túmulo não tem nenhum destaque, a não ser o guarda sempre atento e discreto, talvez para evitar que alguém cave no local. Esse pensamento foi degradante. Se algum dia houve grama ali, já não existe mais. Sentada aos pés do túmulo, eu vi uma garota que não devia ter mais de 18 anos, com os pés na terra batida, fones de ouvido e chorando copiosamente, eu poderia apostar que a musica era The End - ao redor vários outros, prestando suas tristes homenagens. A cena era trágica, eu não precisava ver aquilo e muito menos o Morrison merece. Deixem ele em paz, era só o que eu conseguia pensar! Não entra na minha cabeça Sagitariana esse cerco.

Naquele dia fiquei pensando no esquecimento, no descanse em paz e tudo que se diz nessas horas, em como chegamos a esse momento. Pensei em Balzac e em Kardec e hoje lembrei do texto abaixo. Talvez me entendam.

“No cemitério Père-Lachaise, nas proximidades da vala comum, longe do bairro elegante daquela cidade, nos sepulcros, longe de todos aqueles túmulos de fantasia, que ostentam em presença da eternidade as hediondas modas da morte, num canto deserto, ao pé de um velho muro, debaixo de um grande teixo, revestido de trepadeiras, entre moitas de erva e de musgo, há uma pedra. Esta pedra não está mais isenta que as outras das lepras do tempo, do bolor, de musgo e do excremento dos passarinhos. A água torna-a esverdeada, o ar enegrece-a. Não está próxima de nenhum caminho e ninguém vai para o lado dela, porque a erva ali é alta e num momento se molham os pés. Quando há sol vão ali os lagartos. Em torno há um estremecimento de folhagem. Na Primavera cantam nas árvores as toutinegras. Esta pedra está completamente nua. Não pensaram talhá-la, senão no que era necessário para o túmulo; só tiveram em vista fazê-la bastante comprida e estreita, para que só cobrisse um homem. Não tem nome nenhum. Faz anos, porém, houve quem escrevesse nela a lápis estes quatro versos, que pouco a pouco se tornaram ilegíveis, pela ação da chuva e da poeira, e que decerto estão hoje de todo apagados:
Dorme. Viveu na terra em luta contra a sorte
Mal seu anjo voou, pediu refúgio à morte
O caso aconteceu por essa lei sombria
Que faz que a noite chegue, e apenas fuja o dia!”

Extrato de Os Miseráveis de Victor Hugo
(a tradução adaptada, direto do francês, é minha então não se irritem)
..........................................................Livia Ulian