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domingo, 19 de abril de 2009

Menos uma Vela para Hermes

Deviam ser três horas da manhã e eu não parava de ler. Chego a ficar com raiva de mim quando isso acontece, mas o pior é que a freqüência é grande. Mesmo sabendo que em poucas horas teria que levantar e enfrentar uma belíssima segunda-feira, eu simplesmente não conseguia parar. Já havia tentando por volta das onze horas, fechei o livro, apaguei a luz e mandei meu cérebro dormir.

Meu cérebro é teimoso, ele não cansa, e em sua tentativa de me obrigar a abrir os olhos e voltar à leitura, ele me fez virar na cama por mais de uma hora pensando nas milhares de possibilidades, e nos porquês da situação que se apresentava para o Dr. Creed, isso sim cansa. Rendi-me!

Conformada em iniciar a semana disfarçada de zumbi, o que combinaria com o autor, acendi o abajur e voltei ao livro. A madrugada começou a caminhar, ou melhor, correr. Agora eu olhava para o relógio de cabeceira com culpa e esperança de que a cada página virada ele não houvesse movido seus ponteiros. Chronos se tornou meu maior inimigo e algum outro deus tinha que manter a lua no céu impedindo o sol de surgir. A questão vital era terminar o livro e nada nesse mundo me faria parar.
Os deuses são caprichosos, poucas coisas os divertem e nessa noite eles estavam me testando.

... ele havia acabado de pular o muro do cemitério e quase foi visto por causa dos faróis de um carro que passava, abriu a porta do passageiro e colocou o saco de lixo preto no banco da frente, deu a volta no carro, entrou e quando foi dar a partida, parou assustado...

Assim me lembro, e foi nessa hora infeliz que acabou a luz. Hermes era o deus de plantão e é claro que ele lê Stephen King, pois sabia exatamente o que fazer e qual o melhor momento. Levantei da cama e fui testar a luz do quarto, afinal poderia ter sido somente a lâmpada do meu abajur. Nada! Olhei pela janela, e a rua estava em blackout. Dormir não mais fazia parte de meus planos. Como, eu desisto de uma noite de sono e alguém resolve controlar a minha vida e apaga a luz? Velas faziam parte de meus planos.

Sob a luz da minha última vela, descobri que ele não havia colocado o corpo do filho de cabeça para baixo no carro e terminei o livro antes de Apolo entrar no quarto.

Deste dia em diante uma, ou melhor, duas decisões foram tomadas em minha vida. Primeiro nunca começo a ler King quando o tempo necessário para terminar o livro excede as onze da noite de domingo, segundo, velas são gêneros de primeira necessidade e não podem faltar em minha casa.

Memórias de Todas as Vidas
Abr/18’2009 ................................................Livia Ulian

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